Canção de antanho

Klimt
Os antanhos ardores percebi,
Os carinhos e tristezas de outrora,
Sua mente em afago por ti caí,
E caiu teus motivos da demora.
As horas em instantes eu feri,
Ferido foi-se os ditos da memória.
Suaves leitos breves eu esqueci,
Solapando o sorriso da história.
Mas o breve em breve se transforma,
Instante tanto breve se renova,
Os tristes céus distantes procurei
Teu olhar a lembrar ao alto relembrei.
Ao alto foi-se do amigo à cidade
Os ritos da tristeza na saudade,
O amigo em breve entoarei sua canção,
O canto, nuvens breves, canta em vão.
Os antanhos ardores percebi,
Os carinhos e tristezas de outrora,
Sua mente em afago por ti caí,
E caiu teus motivos da demora.
Raphael Boccardo
10:00 pm • 29 January 2013
Canção em quarto escuro

Meu senso em vivo sente
Lisos toques da canção;
Porém em minha mente,
A mentira do coração.
Como um toque esperança
Fugiu-se só a verdade:
Instantes, belas danças
E danças a saudade.
Meu canto, um hino farto,
Chamas de danças ágeis:
Escura linha, o quarto
De quatro frentes frágeis.
Meu senso em vivo sente
Lisos toques da canção;
Porém em minha mente,
A mentira do coração.
Subi os lados do muro,
Que olhos viu a plana terra,
Os mortos do outro mundo
Dum mundo que se encerra.
Meu canto às asperezas
Dos rústicos encantos,
Sua mente, a natureza,
De naturais espantos.
Figuras da nobreza,
Antigos nobres cantos,
Canções de tristezas,
Tristes olhos, teus prantos.
Meu senso em vivo sente
Lisos toques da canção;
Porém em minha mente,
A mentira do coração.
Meu senso em vivo sente
Lisos toques da canção;
Porém em minha mente,
A mentira do coração.
Porém em minha mente,
A mentira do coração.
4:06 pm • 21 January 2013 • 3 notes
A canção do Campo segundo o urbano

Um pai já de longe avistou,
O filho bardo com violão encantou,
Mulheres e moças, nossas vizinhas
Negras e brancas, todas lindas.
Duas a duas passavam no portão,
O filho bardo entoava o violão,
Toques suaves, duas pernas.
Veja! Todas tomam suas terras!
O pai já de pronto avisou:
Filho, sua canção minha casa afundou
Seu Lá e Fá sua mãe já fugiu
Meu terreno todo, e as vacas, ruiu!
Uma negra - vem chamar à porta
Meu filho não sai à noite na horta
O medo com ele já dormiu
E eu, agora, todo o gado sumiu!
Uma branca - vem comer o bolo
Sua mãe já de pronto me fez o tolo
Agora surgiu essas duas aqui
Com um pé e uma mão agora fugi!
Duas a duas passavam no portão,
O filho bardo entoava o violão,
Toques suaves, duas pernas.
Veja! Todas tomam suas terras!
Veja! Todas tomam suas terras!
O pai já de pronto avisou:
Filho, o canto jamais descansou
A branca e a negra pedem sua mão
Enquanto seu bolso vai-se em vão!
Retomai o que há em suas terras
Para que, ao final, não tomem suas pernas!
As mulheres agora entoam o violão
Cantam o que lhe apraz, qualquer canção
Meu filho já sem nada chora a falta
Do canto misto de vida e chama farta.
Duas a duas passavam no portão,
O filho bardo entoava o violão,
Toques suaves, duas pernas.
Veja! Todas tomam suas terras!
Veja! Todas tomam suas terras!
8:48 pm • 17 January 2013 • 1 note
Prólogo de Terra Papagalli

Trecho:
O POETA
“Sou paulistano boêmio
Das poesias, meu enredo.
Às vezes doo o coração
Às vezes só largo a mão!
Mas com todo este teu prêmio,
Amigo meu, já sou abstêmio!”
8:43 pm • 16 January 2013
Rodovia

Minhas caras…
De caro é claro que São Paulo sempre é
Surpresas nas silhuetas das serras, Oh!
Pequenos passos, passe à frente
Mas não é não, porém…
Surpresas!
Quantas rodovias na vida
Vínhamos de longe, porém
Calma calçadas e não podíamos
Caminhos quantos caminhos
Carros e um Uh! Uh!
Mais Uh! Meus caros
E ainda sem pés…
Sabe que possuo um,
Talvez quatro patas
Somente para andar em caros
Minhas caras, em caros carros
De sãos São Paulos!
8:27 pm • 9 January 2013
Notas Sobre Pequenos Momentos I

Van Gogh
Era um ponto tão certeiro
que incomodava a visão
de quem passava por ali.
Mas o desvio do olhar era impossível.
O ponto permanecia ali,
nos olhos ingênuos
que observavam com curiosidade,
curiosidade eterna.
Por mais que o sujeito tentasse,
com súplicas e choros,
livrar-se deste ponto certeiro,
o ponto voltava com toda força
até que conseguisse dominar
por completo a visão do homem.
O ponto insistia
lá no fundo da consciência,
tornando-o obsessivo.
Raphael Boccardo
11:35 pm • 3 July 2012 • 1 note
Aforismos III

Caravaggio
Certeiro, sim, mas no alvo errado.
A estupidez é incontextualizável.
Entre A e B nem sempre há uma ligação, mas talvez um nojo recíproco.
O objeto se encontra excêntrico ao espaço em que vive. Mas veja! perceba que ele está ali firmemente postado no centro do espaço, distante, desfocado por lentes convergentes.
A vontade primeira do mediano infeliz é saber-se lógico.
Que me importa a dúvida da traição quando me falta o conhecimento para tal?
Raphael Boccardo
12:44 pm • 19 June 2012 • 1 note
Aforismos II

Nesterov
Uma mão que serve mais para afastar do que para socorrer: a história do humano.
Sentimos a exclusão em todas as partes e não somente entre as classes, mas dentro delas, lá fundo, encontra-se um desprezo mútuo, uma tênue linha entre a traição e a fidelidade, confundindo o familiar e o estranho.
O universo é infinito, mas não eterno.
Sempre em vão e para frente, diziam-me.
Cabeça erguida com tristeza é tragédia.
Raphael Boccardo
6:44 pm • 18 June 2012 • 4 notes
Aforismos I

Portinari
É preciso solidão no encantar-se com o olhar.
“Pode porventura o cego guiar o cego?” – Pode até mesmo ser louvado por sua cegueira.
Da noite a noite faz-se o ser. Da noite à noite faz-se mundo.
Se o Estado é a ovelha - quem é o pastor?
Verdade trágica do implícito: tornar-se réu do pressuposto.
No ressurgir das cinzas sempre se corre o risco que o ressurgido perca sua habilidade para queimar.
Entre duas vontades opostas o mediador é sempre o culpado.
Uma lança no meio do mundo e os homens recuarão de nojo diante do reflexo da lâmina.
Raphael Boccardo
6:28 pm • 18 June 2012 • 3 notes
Da partida

Nesterov
Tarda de cantar
um momento contínuo entre
dois saberes matinais.
Por entre esse espaço estreito
meu peito se restringe
no aperto do canto eternal.
Nos êxodos
não se volta nenhum sábio,
pois na vida o canto pouco importa.
Tarda de cantar
um sábio pouco cego,
mas sua visão, ainda que pequena,
não impede os movimentos da partida.
Raphael Boccardo
9:05 pm • 8 June 2012 • 2 notes